14.12.12

(des)aparafusar

quando me confesso é tirar os pregos dos pecados


encantamento

encontrei-o ontem no entroncamento
no rosto rosado risento dos meninos
tinham silêncio para eu entrar com o mar
na pouca terra onde viviam
e mergulhamos e naufragamos juntos com o titanic,
peixes-luz, crostas ardentes nas fossas do mar, noctilucas
golfinhos, e saudade
que eu já sinto do encantamento do entroncamento

30.10.12

sol tenrinho

acordaste-me esta manhã
lá em cima o céu parecia escaldado


22.10.12

Já está!

Eles foram-se embora.
Abriu-se a racha. Abre-se o vapor da solidão.
Vejo-me outra vez sem pés, tombada no chão da solidão.
Vejo o aguaceiro cinzento carregado de lágrimas de mágoa.
Desta vez, estou a aprender a não ficar de luto:
vou cozer a racha com erva doce
encomendar recordações
voar e saltitar,
deixar cair os ti-lin-tins da tristeza
lembrar-me das anedotas de louras,
"o que é um marido DVD?"
já me estou a RIR!!!

10.10.12

queres ver-me assim despida?

sonhos ao léu
bexiga vazia
pele nua
cabelos brancos
dedos caídos
mamilos deitados ?

Então beija-me
corta-me a cabeça
e foge com ela

que eu visto-me de pesadelo
para tu me visitares sem pagar entrada
e incendiares de vermelho o que resta do meu corpo
e da minha honra em pé


4.10.12

desenha um beijo

dentro de mim
com o teu carinho púrpuro
que me faça romper o cume da àgua
e me deixar cair nos braços do mar
e engolir com os teus lábios e a tua pele
a embolia que nos adormece um ao pé do outro
com a paz de quem poderia assim morrer

17.9.12

lágrima em rosto moreno

do meu cigano pequeno
lábios de pinheirinho manso
beijo de morango silvestre
cabelo ceara loura penteada ao vento
ser mais pequenino que nasceu de mim
meu Miguel
quero tanto o teu abraço

Adoro castanhas

com natas de soja e erva doce
batata doce e lareira acesa

5.9.12

Ganchos

Desprendem-se do meu cabelo
como desprendo os nós
que desatam as minhas certezas
Viva a criatividade!

MUNDO!!!

quero-vos anunciar que as folhas de lima voltaram à minha vida:
estou novamente alimada!!

31.8.12

nostalgia

é quando a multidão dos meus filhos se desprende de mim
 e eu sou levitada pela nuvem branca e me deboto no imenso azul do céu
é quando eu me olho ao microscópio e fico perdida no meu caminho
é quando a água fria gela e sela os meus pés num chão de gelo
e o meu corpo nu entronca e se deixa enrugar como a crosta do sobreiro
é quando eu caio num não sei como buraco negro
onde nem os teus lábios luzem com a luz do mar
e quando eu me baloiço,
às vezes vejo uma miragem, um sopro de uma memória
e quando consigo escalar por ela acima vejo-me de novo
a respirar na solidão cheia de silêncio macio onde eu me deito fecho a roupa e sonho
no topo de uma montanha, voo de águia, mãe, mulher esguia, hera, feijoeiro mágico
e encontro a chave que faz soprar o vento, bafejar os vidros, crescer a erva
que faz tocar o meu despertador quando tu me acordas com um beijo
então eu penduro o meu sorriso na corda e deixo-o ao sol a secar
e faço escorrer a saudade que me encharca e voo

21.8.12

ontem

mergulhei no mar salpicado de algas soltas
abri os olhos e encontrei nas suas frondes o teu amor por mim
tão macio como a pele do codium
tão bonito como a renda do spherococcus
tão preso como os ganchos do asparagopsis
tão luzidio como padina
respirei na água,
e quando levantei a cabeça para ver o céu
vi um bracejar de uma barbatana e depois outra
voltei a respirar na água e foi então que te encontrei
estavas sentado no assobio de um roaz
a sorrir para mim, meloso
encontrei-te meu amor!
subi para o teu colo e ficámos abraçados pela nossa melodia
grande como o mar

5.8.12

QUERO VOAR NO MAR

só isso: quero voar no mar

país das maravilhas




há bolas de sabão que engordam ao vento
e rebentam com o pestanejar 
há botões de rosa feitos de pétalas de saudades  
nesse país, a barriga sabe a framboesa
por isso, as pessoas são deliciosas por dentro 
e quando se olham nos olhos, 
vêm campos onde o seu perfume pode germinar




3.8.12

preciso de infinito

de nadar numa aurora boreal
e sonhar que estive a viver numa galáxia
dentro do tubo de aguarela
de quem tenho tantas saudades

1.6.12

deixei-me adormecer num caracol

acordei na sua espiral, enrolada e vestida de arco-íris
espreguicei-me e sem querer perdi a minha casa
caí num lago parado à beira do arvoredo
e com um pauzinho estiquei a sua pele porque queria ver-me ao espelho
os meus olhos falaram e então, em vez de cores vi o meu rosto de mulher bonita

a concha da tua mão agarra-me

como agarras a água que levantas da fonte para a tua boca
e no momento em que me levas aos teus lábios
eu respingo e encharco a tua pele
e mergulho... lá dentro de ti,
e adormeço numa aragem e fico a baloiçar no teu amor



gelatina

tem um brilho fresco de Verão
é como uma sombra esverdeada
daquelas folhas rebentos das árvores

9.5.12

deixa-me sentar aqui

ao colo, nos cabelos do vento
como uma cereja morna ao entardecer
cosida pelo fio de um qualquer suspiro.
Deixa-me sentar aqui.
Daqui vê-se tudo:
os saltos altos  e os batons dos meus sonhos
as malas que me ofereceu a saudade
as casas dos botões dos vestidos vermelhos
o decote, quando me esqueci das coecas
a ternura, tu por mim adentro.
Sabes, fazes-me espreguiçar
e quando eu não consigo mais, rebento em queda livre
sobre um piano que toca acordeão e arpa
num baile de vodka e bochechas rosadas
embriagadas, como eu
nadando pelos olhos do vento
esbugalhada,
mulher afogada de medo,
areia por entre os dedos dos pés
sereia e bolo de chocolate.
Deixa-me sentar aqui
engolir o sono
e fechar-me com uma manta de lã
num prado, a dormir.
Amanha quero orvalhar e rir,
anda, que se faz tarde.

24.4.12

Anoitecida

Aconteceu-me acordar anoitecida
vestida nos pés de mãos calçadas por braços
tinha o corpo em tronco
tinha a cabeça em mesa
nos meus olhos saltavam trampolins que íam e vinham o que viam
nos meus lábios havia uma margem à beira mar de um rio
no meu sangue havia peixes escamados escritos por um fio
saíam cheiros do meu ouvido pelo som de um guiso
e havia um vento que me ensaboava
e havia a tua mão em centelhas
que me abria da pupa
metamorfose linda que me fez anoitecida

gostas de mim?


18.4.12

tenho de voltar a ser árvore

e espreguiçar-me da raíz que me aperta
para encontrar o teu cheiro, avó
descer pelas nesgas da tua pele
e bambulear-me ao borralho
no mosto, pés nas uvas,
no calor da sopa de feijão servida na caruma
no cabo da enchada e nas tuas unhas pretas de terra
na desbulhadora de milho que enchia os alqueires de farinha

quero voltar ao teu cheiro, avó
ao cheiro da canela doce das broas de sábado

tenho saudades de ti





28.2.12

quero ancorar-me ao teu corpo

e pedir-te que me deixes caminhar descalça
com os meus lábios pelo teu rosto
para deixar-te o rasto da minha saudade por ti

22.2.12

sinto-me um papel amachucado

a fechar os olhos
e a morrer amarrotado dentro das suas dobras
que agora são esquinas e viragens do labirinto da solidão desgraçada
de quem sente a perda do amor de um filho





20.2.12

E se eu me encharcasse de flores?

e me fechasse num botão
e me deixasse escorregar no calor da luz do dia,
e me abrisse
e deixasse o meu cheiro respirar
e ele falasse de mim aos insectos ...
E se eu me encharcasse de flores, para ti?
e me beijasses pétala a pétala
e me adorasses folha a folha
e fizesses da minha cor um arco-íris
e me transformasses num lírio de véu e grinalda
e me levasses para o alto de uma árvore
para me dizeres,
amo-te Raquel...

9.2.12

faz-me bem a falta de ar

deixa-me respirar melhor
sozinha, no meu canto
embalada pelo vazio onde eu e só eu bafejamos
que se lixe a solidão
que se chegue para lá
há um deserto no meu coração
e vou mordê-lo: UAMMM... IAC...

quero ficar escondida

dentro da tua concha
toda fechada e toda dobrada
para caber junto do teu corpo
de amêijoa boa do mar

6.2.12

adoro a forma como tu me embrulhas

e me pões ao teu colo,
o canto onde eu me sinto um lírio branco, acariciada.


30.1.12

És capaz de mentir

com batom da cor da verdade nos lábios
vestes-te de general, elevas os pés, ciscas o nariz
e saiem em corneta, as palavras demagógicas
ei-las no palco! belas construções lógicas,
recheadas de todo o sentido,
um, dois, três
um, dois, três,
nem pio,
ei-las!
e como te fazem sentir ainda mais grande e mais belo o verde dos teus olhos
não sentes o cheiro vindo dos teus subterrâneos,
onde deixaste os esqueletos das palavras virgens?

deixo-me ser lancetada
mas hoje dispo-me deste ódio que te me tenho
e ressuscito no mergulho vítreo na água do meu mar


29.1.12

há um pôr do sol

dentro da manteiga de amendoim
que me aconchega de dourado e se cola ao céu da minha boca
fico eu pintada de gulosa, laranja e carmim
quentinha e deliciada



25.1.12

és o meu ninho

onde eu pestanejo os meus olhos
amacio os meus pés
penteio um sorriso para ti
para o momento em que tu chegas
e me abraças com as tuas ondas
e me rodopias
e me pintas com coroas de flores.
Depois fico deitada no colo dos teus olhos
a abrir o teu horizonte cheio de miragens giroscópicas
e ali fico tonta, aninhada,
a diluir-me contigo sem saber a que sabor me vais levar desta vez.



Agro

Agro é o sabor que tempera o meu sal
que me volatiliza em pedaços de pó
Agro é o sabor que veio morar no meu espelho
e que não me deixa ser transparente nem vítria nem luminosa
É amargo maligno e amargurado
uma mão negra que me despede da maresia onde me criei