Aconteceu-me acordar anoitecida
vestida nos pés de mãos calçadas por braços
tinha o corpo em tronco
tinha a cabeça em mesa
nos meus olhos saltavam trampolins que íam e vinham o que viam
nos meus lábios havia uma margem à beira mar de um rio
no meu sangue havia peixes escamados escritos por um fio
saíam cheiros do meu ouvido pelo som de um guiso
e havia um vento que me ensaboava
e havia a tua mão em centelhas
que me abria da pupa
metamorfose linda que me fez anoitecida
gostas de mim?
24.4.12
18.4.12
tenho de voltar a ser árvore
e espreguiçar-me da raíz que me aperta
para encontrar o teu cheiro, avó
descer pelas nesgas da tua pele
e bambulear-me ao borralho
no mosto, pés nas uvas,
no calor da sopa de feijão servida na caruma
no cabo da enchada e nas tuas unhas pretas de terra
na desbulhadora de milho que enchia os alqueires de farinha
quero voltar ao teu cheiro, avó
ao cheiro da canela doce das broas de sábado
tenho saudades de ti
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