29.5.14

o meu avô Gaspar

nos dias que se fecham com o orvalho
lembro-me do meu avô Gaspar
onde eu me sentava ao colo para solfejar

o meu avô foi contrabandista de açúcar e bacalhau
tinha um café com chocolates que eu comia no pão
tocava violino
fazia caixões brancos com motivos dourados
tinha um grupo de teatro
e fazia sessões de cinema para a nossa aldeia na garagem anexa ao café
passava os dias a esmagar alho
assava leitões e cheirava muito a alho

o meu avô Gaspar lançava foguetes nas festas
e por isso eu chamava-o de "chapar dos pumas"
era um homem grande como o tronco do nosso sobreiro

deixou-me o seu violino,
as asas para eu voar como ele

nunca lhe disse que sou assim como ele
mas ele sabia-o e via-o em mim pequenina






28.3.14

Porque é que

Quando luzimos com os olhos frios a lacrimejar nao nos olham nem nos congratulam?

8.2.14

deita-me

nos teus braços,
miguel
meu menino pequenino
doce
que me ama

nostalgia

não sentes o canto do estendal a rolar no fio do céu azul e a nuvem de cheiro a roupa lavada sobre a calçada?
não sentes a encosta  a florir papoilas, fenos, malvas...
e o pintor a pintar nos teus cabelos lavados com champô alfazema roxo?

nostalgia, abre-me os olhos para eu dormir,
que estou muito cansada.